Racismo na tecnologia da imagem
Você já ouviu algo sobre os filmes fotográficos serem racistas? Ficou boiando nesse assunto? Vamos a uma breve história sobre o problema da representação das peles não brancas na fotografia, no audiovisual e até no algoritmo que gerencia o seu celular.
Lorna Roth é socióloga e professora no departamento de comunicação da Universidade de Concórdia, em Montreal. Em certa conversa com um amigo laboratorista, ela constata a frustração dele pela falta de instruções ao calibrar os equipamentos de revelação fotográfica para abarcar uma diversidade de tons de pele. Ela relata e desenvolve isso em uma matéria chamada “Questão de pele”, que vale muita a pena conferir. Para nossa análise, vamos voltar um pouco no tempo.
A Kodak foi fundada em 1888 e desempenhou um papel muito importante na história da fotografia e do cinema. Trazendo câmeras e filmes fotográficos ao alcance do consumidor médio, a empresa conseguiu popularizar a fotografia durante o século XX. No entanto, ao longo dessa história, as tecnologias de filmes e químicos fotográficos da Kodak parecem ter sido concebidas para capturar com mais precisão tons de pele mais claros, levando a representações problemáticas em tons de pele mais escuros, especialmente quando se eram enquadradas pessoas de diferentes raças na mesma foto. Durante os anos, é possível observar como as tecnologias dos filmes e dos químicos criaram estéticas muito características da marca, sendo algumas delas alvos de decisões controversas. É importante pensar que, assim como qualquer outra tecnologia, a fotografia foi extremamente influenciada por fatores sociais, sendo muito importante nos questionar as relações raciais embutidas na criação de imagens até hoje.

As tentativas da Kodak de aumentar o alcance dinâmico de seus filmes não foram inicialmente motivadas por preocupações raciais, mas sim por demandas de setores como fabricantes de móveis e chocolates. A insatisfação com a representação inadequada de tons de madeira e chocolate levou a Kodak a repensar a química de seus filmes, não considerando , inicialmente, a representação fiel de tons de pele diversificados. Essas implicações raciais associadas ao desenvolvimento dos filmes da Kodak resultaram em acusações de discriminação racial e suspeitas sobre motivações políticas para resolver a questão. Muitos observaram que a Kodak parecia priorizar a modificação dos filmes apenas quando isso impactava os lucros, sem considerar adequadamente a representação precisa de pessoas não-brancas.
Além disso, a questão da distorção de cores na fotografia não se limita apenas à composição química dos filmes. Ferramentas de calibração, como o cartão “Shirley” adotado pela Kodak a partir dos anos 1940, ilustram essa problemática. As “Shirleys”, retratadas nesses cartões, eram consistentemente representadas como brancas, dificultando a calibração para retratos que envolvessem pessoas com uma variedade de tons de pele.

Lorna Roth apresenta um panorama marcante sobre a história desses cartões e como a reprodução de tons de pele mais escuros era desafiadora, resultando em imagens indistintas ou demasiadamente escuras, enquanto tentativas de capturar detalhes nessas peles acabavam por superexpor as de tonalidade mais clara. Esses cartões, como os “Shirleys”, eram restritos aos laboratórios, sendo manipulados por técnicos como referência de balanço de cores, sendo assim desconhecidos pelo público geral. Além dos cartões Shirley, as “Color Girls” na televisão e as “China Girls” no cinema, todas de pele clara, estabeleceram padrões de balanço de cores por décadas.

As “China Girls” eram a versão cinematográfica dos cartões Shirley, aparecendo no início dos filmes para auxiliar na calibração de cores e tons de pele. Embora de forma mais sutil, esse método ainda persiste na indústria cinematográfica atualmente.
Jean-Luc Godard, o renomado diretor francês, fez um boicote declarado aos filmes da Kodak, rotulando-os como racistas. A atitude de Godard representou um poderoso ato de protesto contra a marginalização das peles escuras no campo da fotografia, destacando o viés intrínseco à tecnologia de imagem. Essa ação foi uma chamada de atenção impactante para as questões de representação e justiça racial no meio cinematográfico.
Apesar da expectativa de que a entrada das câmeras digitais eliminaria problemas semelhantes aos causados pelos cartões Shirley, a realidade não foi completamente favorável nesse sentido. A questão da representação precisa e equitativa de tons de pele variados ainda persiste em muitos dispositivos digitais, destacando que a preocupação com a representatividade precisa avançar ainda mais na tecnologia moderna.

á uma série de exemplos que evidenciam as falhas e preconceitos presentes em tecnologias de reconhecimento facial e algoritmos de processamento de imagem. A webcam da HP lançada em 2009 mostrou uma clara incapacidade de detectar e rastrear rostos de tons de pele mais escuros, enquanto a Coolpix S630 da Nikon enfrentou problemas semelhantes com consumidores asiáticos, evidenciando a limitação na identificação facial. Além disso, em 2015, o Google enfrentou críticas significativas após seu aplicativo de classificação automática de fotos rotular dois jovens de pele escura como “gorilas”, o que levou a empresa a pedir desculpas publicamente pelo incidente. Esses exemplos ressaltam as consequências preocupantes do viés racial nos algoritmos de reconhecimento e classificação de imagens.
Outra área de preocupação é o Instagram, onde há acusações de que o aplicativo reforça a ideia predominante de que a brancura é a norma estética preferida. A percepção de que os filtros disponíveis favorecem tonalidades de pele mais claras é motivo de controvérsia entre os usuários. Por fim, temos os bancos de dados utilizados para treinar inteligências artificiais frequentemente têm uma representação majoritária de pessoas brancas, o que resulta na sub-representação ou na representação estereotipada de pessoas de pele mais escura, muitas vezes retratadas apenas em contextos negativos, como criminalidade ou escravidão. Esses problemas ressaltam a importância de uma abordagem mais inclusiva e diversificada no desenvolvimento e na aplicação de tecnologias de inteligência artificial.
O cerne desses problemas não reside nas limitações técnicas, mas na falta de consideração e percepção sobre a diversidade dos usuários desses produtos. A ausência de representatividade nos testes de produtos revela a deficiência na compreensão da diversidade de tons de pele que precisa ser incorporada nos algoritmos finais. A falha em realizar testes adequados em um mercado global etnicamente diverso evidencia a abordagem dos fabricantes em relação às relações raciais. Existe uma questão moral aqui, além de um problema explícito relacionado a custo e estratégias de marketing. As tecnologias, por si só, não são intrinsecamente racistas. Elas são construídas por pessoas que moldam uma estrutura baseada em decisões econômicas e culturais. A evolução na reprodução de tons de pele nas imagens digitais é uma continuação do que começou com os cartões Shirley.
O caso da Kodak é intrigante e lança luz sobre a maneira como a crença na neutralidade da tecnologia é tão predominante que poucos questionam a indústria visual. A maneira como nossos dispositivos tecnológicos e produtos visuais operam, o que eles promovem ou negligenciam, é determinada pelos agentes culturais e financeiros que moldam as decisões de design. Esses padrões, por sua vez, atuam como ferramentas educacionais implícitas que moldam nosso mundo visual.
A história da fotografia e do cinema foi predominantemente focada na representação de pessoas brancas, o que se refletiu na forma como os filmes foram concebidos, resultando em sistemas de reprodução de cor que muitas vezes privilegiam tons de pele mais claros. Essa herança histórica causa desafios significativos na correção de cor, especialmente quando se trata de representar pessoas de pele mais escura.

O exemplo do trailer do remake em live action de A Pequena Sereia é ilustrativo disso. No caso específico desse filme, houve polêmica em torno da representação da personagem Ariel, interpretada por uma atriz negra, e como a iluminação e a correção de cor podem impactar a representação fiel da pele da personagem.
É essencial um esforço consciente e uma mudança de paradigma na indústria cinematográfica e fotográfica para reconhecer e valorizar a diversidade racial em todos os aspectos do processo, desde a captura até a pós-produção.
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