O Segredo Além do Jardim: Um passeio pelo desconhecido
“Over the Garden Wall, ou traduzido para o português, O Segredo Além do Jardim, é uma minissérie de 10 episódios criada por Patrick McHale para o Cartoon Network, estreando em novembro de 2014 nos EUA. A trama é protagonizada pelos irmãos Wirt e Greg, dublados por Elijah Wood e Collin Dean, que se encontram perdidos em uma floresta conhecida somente como ‘o desconhecido’, tentando voltar para casa.
Inicialmente, Over the Garden Wall era um curta-metragem intitulado “Tomo do Desconhecido” (Tome of the Unknown). Patrick McHale criou a estética principal do que viria a ser a minissérie, assim como seus protagonistas Wirt, Greg e Beatrix. Desenvolveu um curta-metragem nos moldes de como os episódios viriam a funcionar, com eles explorando o desconhecido e seus habitantes. Mesmo esse curta-metragem tendo funcionado como um “episódio piloto”, não foi utilizado como parte dos 10 episódios da série. Porém, ao assisti-lo, boa parte dos elementos ali presentes foram reutilizados e adaptados de outros modos para o produto final.

A série foca na trajetória dos irmãos Wirt e Greg e da sua guia Beatrix, uma passarinha azul, pelo ‘desconhecido’, onde eles são confrontados com diversos elementos peculiares que desafiam a lógica. Animais falantes, bruxas, esqueletos ambulantes, sapos vestidos com traje de festa, um suposto lenhador louco e uma entidade maligna temida por todos são alguns dos elementos que encontramos na série.
A relação entre os irmãos é muito bem trabalhada, personagens que funcionam como opostos complementares. Wirt é inseguro e preocupado, enquanto Greg é inocente e impulsivo, características que os colocam em muitas enrascadas. Porém, essas mesmas características os livram do perigo. Greg é dono de uma inocência encantadora, usando uma chaleira como chapéu mantendo-se positivo e cantando até mesmo nos momentos mais traumatizantes. Já Wirt é pessimista e melancólico, sempre filosofando e criando poesias para tentar preencher seu vazio existencial. Essa característica pode ser taxada como “chata”, mas a série não pesa a mão nos diálogos e na construção dos personagens, deixando os dois verdadeiramente divertidos de acompanhar.

No episódio piloto, os irmãos já estão perdidos na floresta tentando encontrar o caminho de volta, e a narrativa nos joga em uma trama já em andamento, nos dando a chance de ir montando em nossas mentes em que contexto tudo teria acontecido, fornecendo, aos poucos, informações sobre os seus protagonistas com diálogos que muitas vezes parecem bobos. No entanto, à medida que a trama avança, percebemos que eles estavam lá por uma razão, e ao final, percebemos que é um enredo muito bem amarrado.
Dois irmãos perdidos no ‘desconhecido’, passando por diversas aventuras e provações para achar o caminho de volta para casa. A premissa básica da minissérie pode não ser original, sendo bastante comum em contos de fadas como Alice no País das Maravilhas, O Mágico de Oz e até mesmo no desenho Caverna do Dragão. Porém, quando se trata de Over the Garden Wall, seu diferencial em relação a essas outras obras definitivamente está na estética e nos simbolismos

Inicialmente, o projeto seria um especial de Dia das Bruxas do Cartoon. Não é à toa que Halloween e outono são duas referências escolhidas para esse show, que conta com uma paleta de cores terrosas com árvores secas e folhas amareladas, fazendo referência à cromolitografia, cartões postais vintage de Halloween, e os moradores do ‘desconhecido’ vão de bruxas a animais falantes, de cidades bucólicas a mansões assombradas, mantendo a vibe de Nova Inglaterra nos séculos 18 e 19.

Entre as inspirações dos desenvolvedores estão claramente o jogo de tabuleiro dos anos 1890 Game of Frog Pond, ilustrações antigas para as histórias de Hans Christian Andersen como O Isqueiro Mágico (The Tinderbox), Alice no País das Maravilhas, as ilustrações de Gustave Doré para Dom Quixote, assim como a Divina Comédia, que é alvo de teorias e interpretações desde que a série estreou.

A série é repleta de easter eggs, e tudo, principalmente as imagens da abertura, tem um significado. Uma casa que parece aleatória no início da jornada, se observada com atenção, revela que era a moradia de um personagem X que aparece mais para frente na trama. As tartarugas pretas que aparecem no decorrer do desenho podem ter um significado mais sombrio e extenso do que aparece na camada superficial da trama. Assim, Over the Garden Wall nos convida a assistir duas ou mais vezes a minissérie, e cada vez a experiência pode ser diferente, uma vez que, sabendo onde tudo vai dar, nossa atenção pode ser deslocada para o texto que está nas entrelinhas da obra.

Outro ponto forte que ajuda a criar a ambientação de Over the Garden Wall é a trilha sonora da série, composta pela banda de folk cigano The Blasting Company, que utiliza instrumentos como piano, violino e teremim para criar uma experiência sonora melancólica e imersiva. No entanto, isso não faz da série um desenho triste, assustador e não apropriado para crianças, como alguns podem pensar. As músicas soturnas unem-se com a estética outonal, fazendo-nos sentir o aconchego de uma bebida quente em um dia frio e chuvoso. Até hoje, é minha trilha sonora favorita para relaxar e passar o tempo quando estou sozinho em casa.

Porém, mesmo a série sendo agradável e aconchegante, ela consegue ser assustadora. certas imagens remetem ao lado mais temeroso dos contos de fadas antigos, o que gera um equilíbrio perfeito entre a serenidade e o pavor, a comédia e o drama. uma atmosfera que é muito comparada com as dos filmes do estúdio Ghibli, e com certeza Over the Garden Wall evoca a mesma sensibilidade que os filmes do Miyazaki.

Over the Garden Wall é uma das séries animadas mais bonitas, aconchegantes e visualmente estilosas da última década. Ao mesmo tempo que consegue ser assustadora como os contos de fadas originais, ela é ao mesmo tempo leve, engraçada e divertida. Para os apreciadores dos “easter eggs” (expressão para descrever referências/surpresas que estão escondidas dentro de uma mídia) referências culturais é o que não falta para aprofundar-se neste “caldeirão do imaginário” que é este desenho. Sendo uma minissérie de 10 episódios, tendo 11 minutos cada, faz com que toda a experiência tenha uma duração de 110 minutos, o que torna perfeitamente possível assistir tudo de uma vez só, porém dificilmente é o tipo de série que você vai assistir só uma vez.
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