Pearl: Contos de fada e traumas geracionais

Pearl: Contos de fada e traumas geracionais

O mais recente longa do diretor Ti West, Pearl, continua na boca do público brasileiro que ama terror. Tanto Pearl quanto X, filme anterior do diretor, fazem parte de uma trilogia, sendo Pearl uma prequela de X e a terceira parte dessa história, Maxxxine, estreia ainda esse ano. Confesso que não assisti X, muito pelo subgênero de terror Slasher não ser um dos meus preferidos, e poderia escrever uma crítica convencional sobre Pearl dizendo se vale a pena assistir sem ter visto X, se o filme funciona por si próprio ou se vale todo o hype construído. Mas decidi falar um pouco sobre o filme a partir de alguns pontos particulares. Qual a ligação que esse filme tem com outros contos de fada? Como esse filme pode tratar de temas tão parecidos com A Bela Adormecida ou A Branca de Neve? Seria Pearl um O Mágico de OZ Sombrio? Fica aqui comigo e vamos refletir sobre algumas questões.

1- Não coma da fruta proibida!

Na mitologia grega, Deméter era a deusa da agricultura, das colheitas e da fertilidade. Perséfone, por sua vez, era sua filha e era considerada a deusa da primavera e rainha do submundo, após ter sido raptada por Hades, deus do mundo subterrâneo. A história de Deméter e Perséfone é uma das mais conhecidas da mitologia grega. Segundo o mito, Perséfone foi raptada por Hades enquanto colhia flores em um campo. Deméter ficou devastada com o desaparecimento da filha e a procurou por todo o mundo. Durante sua busca, Deméter descobriu que Hades havia raptado Perséfone e a levado para o submundo. Desesperada para recuperar sua filha, Deméter negou as colheitas e fez a terra ficar estéril, o que causou fome e desespero em toda a humanidade. Em resumo, Perséfone não poderia voltar, pois havia comido uma romã oferecida por Hades, o que a condenou a passar seis meses por ano no submundo como rainha do reino dos mortos, enquanto os outros seis meses eram passados com a mãe na superfície.

 Em algumas culturas, a romã é vista como um símbolo de amor e de fertilidade feminina (muito pelo aspecto físico da fruta). Por conta desse mito, a romã também é frequentemente associada à morte e ao renascimento. O fato de Perséfone ter comido da romã enquanto estava no submundo simboliza seu compromisso com o mundo dos mortos, ou seja, com o seu marido. E o fato de Perséfone ter que voltar à superfície para ajudar a mãe nas tarefas, representa bem a dualidade da mulher entre as suas responsabilidades com a família e com o marido.

A Síndrome de Perséfone é um termo que se refere a uma relação de dependência emocional excessiva que algumas mães estabelecem com suas filhas. A expressão é derivada justamente desse mito grego. Na psicologia, a Síndrome de Perséfone é caracterizada por uma relação de superproteção e controle exercida pela mãe em relação à filha, impedindo que a filha desenvolva sua própria independência emocional e habilidades sociais. Deméter traz a ideia de uma mãe megera que quer controlar a filha a todo custo, isso causa uma disputa de agência da filha em relação à própria sexualidade. Deméter literalmente blindou a filha numa eterna primavera, longe de homens e problemas. Se Hera personifica o arquétipo da esposa, Deméter é o da mãe.

Podemos fazer um paralelo entre a jornada de Pearl e a de Perséfone. O rapto de Perséfone faz referência à forma como se inicia o contato com o inconsciente impregnado pela inocência. Pearl, por longo tempo, se mantém numa atitude fantasiosa com relação às questões decisivas da maturidade e são despertadas de modo violento.

 O tema da descida ao inconsciente, seguida da ascensão, vai transformando a ingênua Perséfone na grande “Senhora dos Infernos”, mas não sem antes sofrer os períodos de pavor através do qual um psiquismo inocente é invadido pelo confronto dos conteúdos assustadores que estiveram durante longo tempo reprimidos. A descida inicialmente traumática é a chave para um vasto campo de descobertas interiores. Perséfone imatura geralmente aparece sob a roupagem da vítima, de mártir, de incompreendida. Abandonar o lugar de inferioridade antes habitado e colocar-se como pessoa ativa na construção do próprio destino é uma mudança que desafia o antigo padrão tão cultivado pela Perséfone menina. Despedir-se dos aspectos infantis e assumir o ônus da vida adulta, responsabilizando-se pela própria psiquê, assumindo seus deuses e monstros interiores é o que transforma a vítima assustada na Perséfone sábia.

2- Uma pérola ou um rubi?

A cor vermelha é frequentemente usada em filmes para transmitir uma ampla gama de emoções e significados, e pode ter vários efeitos visuais e psicológicos sobre o espectador. Em primeiro lugar, a cor vermelha é frequentemente associada a emoções intensas, como paixão, amor, raiva, perigo e violência. Em um filme romântico, o vermelho pode ser usado para destacar a atração e a química entre os personagens principais. Já em um filme de suspense ou terror, a cor vermelha pode ser usada para aumentar a tensão e o medo, evocando imagens de sangue, perigo iminente e morte.

Além disso, a cor vermelha também é usada para enfatizar ou destacar objetos ou personagens específicos em uma cena. Um exemplo clássico disso é o icônico vestido vermelho usado por Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”. O vermelho vibrante do vestido chama a atenção do espectador e destaca a personagem em meio ao cenário cinza da cidade de Nova York.

Essa cor, em especial, é um elemento importante na história e na simbologia de “O Mágico de Oz”, que pode ser interpretada de diferentes maneiras. No início do filme, a personagem principal, Dorothy, usa sapatos de rubi vermelho, que foram escolhidos especificamente para o filme, enquanto no livro original de L. Frank Baum, os sapatos eram prateados. Os sapatos vermelhos, brilhantes e cintilantes, são frequentemente associados à magia e desempenham um papel fundamental na jornada de Dorothy de volta para casa.

Por trás da narrativa, a escolha da mudança da cor dos sapatos diz respeito à tecnologia da época. Lançado em 1939, “O Mágico de Oz” foi um dos primeiros filmes a ser produzido em cores vibrantes e ricas, e o resultado foi surpreendente para a época. As sequências em preto e branco no início do filme, que mostram a vida da protagonista Dorothy na fazenda em Kansas, contrastam com as cenas em Technicolor (uma técnica de coloração utilizada em filmes, televisão e outras produções audiovisuais que teve sua origem nos anos 1910. Até hoje essa técnica continua sendo sinônimo de cores vibrantes e ricas, sendo considerado um ícone do cinema clássico e um marco histórico na evolução da tecnologia de cinema.), que retratam a Terra de Oz, um mundo mágico e cheio de cores. Uma das principais razões para a mudança foi que a cor prateada não tinha tanto destaque na tela quando era filmada em Technicolor. Além disso, os sapatos vermelhos são uma metáfora para o poder que Dorothy já possuía dentro de si, mesmo antes de começar a jornada em Oz. Nos livros, os sapatos de prata eram mágicos e tinham poderes que ajudavam Dorothy em sua jornada, e os sapatos vermelhos do filme são considerados uma adaptação dessa ideia. A cor vermelha é frequentemente associada à paixão, coragem e energia, e esses atributos podem ser aplicados à personagem de Dorothy e à sua jornada de autodescoberta e empoderamento.

Uma interpretação comum é que a cor vermelha representa a estrada de tijolos amarelos que Dorothy segue para chegar à Cidade das Esmeraldas. A estrada de tijolos amarelos é uma metáfora para o caminho que leva à verdadeira felicidade e autoconhecimento, e a cor vermelha representa os perigos e obstáculos que Dorothy precisa superar para chegar lá. Ao longo da jornada, ela encontra vários personagens que usam roupas vermelhas, como a Bruxa Má do Oeste, que é vista pela primeira vez em um vestido vermelho e chapéu cônico, simbolizando a maldade e o perigo que ela representa.

Outra interpretação possível é que a cor vermelha representa a dualidade da vida: o bem e o mal, o amor e o ódio, a alegria e a tristeza. O vermelho pode simbolizar tanto a paixão e o amor que Dorothy sente por seus amigos, quanto a raiva e a fúria que a Bruxa Má do Oeste demonstra em relação a ela.

Em resumo, a cor vermelha em “O Mágico de Oz” pode ser interpretada de várias maneiras, mas em geral representa os perigos e obstáculos que Dorothy precisa superar em sua jornada rumo à auto-realização e à felicidade. Essa cor é extremamente importante durante a jornada de Pearl no filme. Toda a estética simulada do Technicolor e a iconografia do filme, como a roupa azul de Pearl na fazenda, é meticulosamente pensada para nos remeter à jornada de Dorothy. Pearl precisa escolher entre a pílula azul, sua vida na fazenda, e a pílula vermelha, a jornada pelo seu próprio inconsciente.

3- Onde estão as fadas?

Os contos de fadas têm uma função psicológica importante na vida humana, pois oferecem uma forma de explorar e entender os aspectos mais profundos da psique humana. Eles podem ajudar a transmitir valores culturais, a lidar com medos e ansiedades, bem como a desenvolver a criatividade e a imaginação.

Um dos aspectos mais importantes dos contos de fadas é que eles apresentam uma visão de mundo simbólico, o que significa que seus personagens e situações têm um significado mais profundo do que a estória em si. As estórias geralmente apresentam arquétipos universais, como o herói, o vilão, a mãe, que ajudam a entender melhor as diferentes facetas da personalidade humana.

Os contos de fadas também fornecem um espaço seguro para que as crianças possam lidar com seus medos e ansiedades. Eles abordam temas como a morte, a perda e a separação, questões importantes para o desenvolvimento emocional. Ao confrontar esses temas dentro de um contexto simbólico e seguro, as crianças podem aprender a lidar com suas emoções de forma mais natural. á reparou como em muitas dessas histórias os heróis são órfãos? Isso pode se dar por alguns motivos, citarei só os que fazem sentido à narrativa que esse texto tenta costurar.

Trauma: A perda dos pais ou a falta de uma figura paterna/materna pode causar traumas psicológicos que afetam o comportamento do herói. Esses traumas podem servir para humanizar o personagem e torná-lo mais interessante para o público.

Independência: Sem a proteção dos pais, o herói precisa aprender a se virar sozinho. Isso pode torná-lo mais independente e auto-suficiente, o que pode ser uma característica desejável para um herói.

Simbolismo: A perda dos pais ou a falta de uma figura paterna/materna pode simbolizar a transição do herói da infância para a idade adulta. Isso pode representar o crescimento do personagem e a jornada de autodescoberta que ele precisa fazer para se tornar um herói.

Claro que a Pearl não é exatamente a heroína desse filme, mas como acompanhamos essa jornada pela perspectiva dela, alguns desses pontos servirão como combustível para a jornada da personagem nessa crescente de violência, principalmente se pensarmos na relação de Peal com sua principal antagonista: a sua mãe.

4- Eu, a minha mãe?

As madrastas em contos de fadas são frequentemente retratadas como vilãs, que tratam mal os enteados ou não resistem ao impulso de tentar eliminá-los. Essa imagem negativa de madrastas é bastante comum em histórias populares, como “Branca de Neve”, “Cinderela” e “A Bela Adormecida”.

A figura da madrasta malvada pode servir como um símbolo para os medos e angústias que as crianças enfrentam quando um de seus pais se mostra diferente do que lhe era comum com o advento do crescimento da criança. Nesse sentido a madrasta é só um arquétipo que representa a figura da própria mãe, alguém que deveria estar ali para cuidar mas não consegue resistir ao impulso de controlar. A mãe e a madrasta são a mesma coisa, nossas mães são duplas, uma é carinho, amor e cuidado, já a outra é opressão e controle. Quando crescemos, no nosso inconsciente morre a mãe, nasce a madrasta.

Uma das maneiras de ler o conto da Branca de Neve é que a madrasta está com medo de ser superada pela juventude, inocência e beleza da enteada. Como resposta, ela escolhe por “preservar” essa imagem através da… morte. Okay, isso pode parecer estranho mas é mais comum do que se pensa inicialmente, vamos lembrar, por exemplo, da Bela Adormecida. Nesse conto a maldição se dá no aniversário, simbolizando a vida adulta que a personagem vai ser privada de ter. Por mais absurdo que essas coisas sejam, tudo está sob controle da figura materna. Repare que há uma repetição, uma rima nessas histórias. Uma morre, a outra nasce. A mãe e filha estão presas nesse looping geracional onde uma está sempre se tornando a outra. Isso se torna ainda mais simbólico com o monólogo de Pearl ao final do filme, onde a personagem confessa já ter abortado. Se considerarmos que o antagonista é um espelho do protagonista, nesse caso ambas estão presos em um looping, uma sempre se torna a outra, uma nasce, uma morre, Pearl acaba por encerrar a gestação de si mesma. Pearl assimila sua mãe, sua vilã, e se torna ela mas se recusa a ser superada por sua própria filha um dia.

No vídeo intitulado ‘Minha mãe, a supervilã’, o autor e apresentador do vídeo, Thiago Guimarães, fala o seguinte sobre essa dinâmica no audiovisual:

“A gente foi educado por uma tradição do storytelling que vilaniza as mulheres e martiriza os homens. O pai é a figura que morre, que vai embora, que é mutilado pela guerra, pelo mundo e pelas mulheres. E a mãe é a figura castradora e controladora que assume todas as responsabilidades da família depois que esse pai vai embora.”

Espero que esse texto faça com que algumas cenas do filme surjam na sua cabeça, que tenha conseguido evidenciar como o nosso imaginário está contaminado por essas mesmas noções do feminino que restringe e do masculino que expande. E, principalmente, que faça com que você, caro leitor, faça sua própria interpretação e dê continuidade a essa conversa. 

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